Agente Territorial de Cultura Salatiel Cícero desenvolve mapeamento inédito das contribuições econômicas dos grupos de cultura popular em Pernambuco
Iniciativa, pioneira no Estado, fará parte de uma plataforma digital voltada à organização e à visibilidade dos bens, serviços e saberes produzidos por grupos de tradição afro-indígena no município de Nazaré da Mata
A cultura popular começa a ganhar espaço no debate sobre pequenos negócios, empreendedorismo e desenvolvimento econômico no Brasil. No interior de Pernambuco, um projeto liderado pelo jornalista e agente territorial de cultura, Salatiel Cícero, aponta que práticas culturais tradicionais também funcionam como empreendimentos coletivos, capazes de gerar trabalho, renda e oportunidades de forma sustentável.
Há quase um ano, o comunicador vem desenvolvendo um trabalho de registro e documentação audiovisual com 16 grupos de Maracatu de Baque Solto, entre os 19 grupos sediados em Nazaré da Mata que manifestaram interesse em participar do projeto, na Zona da Mata Norte do estado. O município é reconhecido como Capital Estadual do Maracatu de Baque Solto e concentra um dos principais pólos dessa manifestação cultural centenária.
A iniciativa integra o plano de trabalho de um projeto aprovado no edital da Política Nacional Aldir Blanc em Pernambuco, na linha Economia Criativa Solidária. O foco está no mapeamento estruturado das agremiações, reunindo registros fotográficos, audiovisuais, sonoros e informações institucionais que revelam como esses grupos se organizam, produzem e mantêm suas atividades ao longo do ano.
Embora sejam tradicionalmente associados ao Carnaval, os grupos de maracatu rural desenvolvem atividades contínuas que vão além do calendário festivo. Eles produzem indumentárias, instrumentos, realizam ensaios, oficinas, apresentações e ações formativas. Todo esse processo se sustenta em uma lógica de trabalho coletivo, autogestão e cooperação, características centrais da economia popular e solidária.
Antes mesmo de o Brasil reconhecer oficialmente a economia solidária como política pública, no início dos anos 2000, os grupos de cultura popular já operavam, há quase um século, a partir desses princípios. No caso do Maracatu de Baque Solto, a organização coletiva surgiu entre trabalhadores do campo, que estruturaram formas próprias de produção cultural, gestão de recursos e divisão de tarefas como estratégia de sobrevivência econômica e preservação identitária.
No Brasil, a economia solidária ganhou reconhecimento institucional em 2003, com a criação da Secretaria Nacional de Economia Solidária, no então Ministério do Trabalho e Emprego. Em 2016, o país registrava mais de 20 mil iniciativas desse tipo, envolvendo cerca de 1,4 milhão de trabalhadores. Hoje, o modelo é apontado como alternativa viável para pequenos empreendimentos baseados no território, no coletivo e na sustentabilidade.
Ao longo do trabalho de campo, o projeto passou a evidenciar que os grupos de maracatu funcionam como microestruturas produtivas, com cadeias próprias de trabalho, geração de renda e circulação econômica. Mestres, brincantes, costureiras, artesãos, músicos e produtores culturais atuam de forma integrada, mantendo viva uma economia que, historicamente, permaneceu à margem das políticas de desenvolvimento.
O acervo audiovisual reunido será lançado ainda neste mês e integrará uma plataforma digital, voltada à organização e à visibilidade dos bens, serviços e saberes produzidos pelos grupos de cultura popular. A expectativa é ampliar o acesso de empresas, instituições, produtores culturais, gestores públicos e do próprio mercado criativo a essas iniciativas, fortalecendo oportunidades econômicas para além do período carnavalesco.
Para Salatiel Cícero, idealizador e coordenador geral do projeto, a iniciativa aponta para um novo olhar sobre a cultura popular no campo do empreendedorismo. “O trabalho de mapeamento e documentação mostra que os grupos já atuam dentro de uma lógica de economia criativa e solidária há décadas. Quando esses saberes tradicionais passam a ser organizados e reconhecidos, os grupos conseguem dialogar de forma mais estruturada com mercados criativos, turismo cultural, educação e políticas públicas de desenvolvimento local. A cultura popular sempre gerou valor. O que falta é reconhecimento, estrutura e oportunidade para que esse valor gere mais desenvolvimento nos territórios”, finalizou.
A ação conta com apoio do Ministério da Cultura, por meio da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, além da Secretaria de Cultura de Pernambuco e do Governo de Pernambuco.





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